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Projeto Motostory: Os tais Fittipaldi

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  • Publicado: 10/04/2020
  • Atualizado: 12/05/2020 às 15:59
  • Por: Willian Teixeira

“Minha mãe descobriu que eu estava correndo de motos e bradou: de moto, não! Se quiser correr, vai ser de carro”, explica Emerson.

Texto: Carlãozinho Coachman
Fotos: Acervo Motostory

Alguns já ouviram falar que Emerson Fittipaldi gostava muito de motos quando criança. Na verdade, gosta de motos até hoje. Já li frase acima algumas vezes e até a ouvi dele próprio, em um encontro que tivemos no Salão Megacycle, quando ele era sócio do evento. “Sim, minha mãe não gostava da ideia de me ver correndo de moto”, ele me falou naquele dia. Mas, se você tem seguido nossas matérias aqui na MOTOCICLISMO, já deve ter lido que o pai de Emerson, o “Barão” Wilson Fittipaldi, era o verdadeiro apaixonado por motos.

Já mostramos aqui, em matéria anterior, a edição n°1 da revista Motociclismo, de 1949, criada por Eloy Gogliano (editor) e Wilson Fittipaldi (comercial). Acontece que o Barão era conhecido também por ser um grande radialista e exímio redator, tendo inclusive realizado diversas reportagens para a Motociclismo dos anos 1940 e 1950.

Matéria jornalística assinada por Wilson Fittipaldi (Acervo Motostory)

Mas não foi apenas ao jornalismo que se resumiu a passagem de Wilson pelo motociclismo. Em 24 de abril de 1959, ele assumiria a presidência da Federação Paulista de Motociclismo e, naquela altura, já era também o diretor comercial da Rádio Panamericana. No dia da posse, que aconteceu na sede do Centauro Moto Clube, no famoso endereço da Av. São João, 1151, 1º andar, pedia 30 dias para colocar a casa em ordem e apresentar um calendário de eventos.

Jornais e revistas da época noticiaram a posse de Wilson Fittipaldi:

Falava em realizar eventos internacionais em São Paulo e enviar equipe brasileira a eventos internacionais também. Além disso, fez questão de frisar que sua diretoria seria composta por um representante de cada clube filiado à Federação naquela época. Foi, segundo o jornal que não identificamos, ovacionado pelo grande número de motociclistas presentes ao evento e pelos membros dos clubes Centauro MC, Piratininga MC, Santos MC, Guzzi MC e A.A. Portuguesa. Sua diretoria era composta ainda por José Antonio Menotti Rocco, Antonio Pasqualucci, Waldemar Soutelo e os suplentes Darwin Pires, Gino Segre e Jack Nedwinoky.

Ficha de registro de Emerson na Federação Paulista de Motociclismo (Acervo Motostory)

Mas, da passagem do filho mais famoso pelas motocicletas, pouco tínhamos visto de documentos a respeito. Até hoje.

“Minha mãe descobriu que eu estava correndo de motos e bradou: ‘De moto não! Se quiser correr, vai de carro.’ Ela não gostava da ideia de me ver correndo de duas rodas”, recorda Fittipaldi. Acontece que ele correu. A moto era uma Mondial 50cc de 1960 (ainda estamos procurando as fotos dele em ao menos uma prova), embora os documentos já tenhamos encontrado. A ficha de inscrição dele na Federação Paulista de Motociclismo que temos no acervo do Motostory data de 8 de dezembro de 1963 e mostra que ele pertencia ao Falcão Moto Clube. A esse mesmo clube, pertenciam ainda Adriano Ermete Ferro (primo do meu pai Carlão Coachman) e um tal de Eduardo Celso Santos, mais tarde conhecido como Adu Celso, o primeiro brasileiro a vencer uma etapa de Campeonato Mundial em Jarama, 1973, 20 anos antes de Alex Barros conquistar a sua no mesmo circuito, em 1993.

História dos Fittipaldi no Motostory
Antes do sucesso nos carros, Emerson Fittipaldi tentou fazer carreira nas motos, mas sua mãe o impediu (Acervo Motostory)

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Encontrei-me recentemente com Adriano Ferro e ele me disse recordar muito bem desses anos ao lado de Adu (de quem foi grande amigo) e de Emerson. “O Falcão Moto Clube não durou muito. A sede era na casa do presidente do clube, que era um pouco desorganizado, e as nossas reuniões aconteciam lá. Emerson e Adu também foram algumas vezes.” Recorda Adriano.

História dos Fittipaldi no Motostory
Adriano Ferro (com sua Iton de 50 cc) e Emerson Fittipaldi pertenciam ao Falcão Moto Clube (foto do Campeonato Brasileiro de 1962, disputado em 1963) (Acervo Motostory)

Apesar da ficha de filiação de Emerson ser de dezembro de 1963, ele participou da prova de encerramento do Campeonato Brasileiro de 1962, que aconteceu dia 24 de março de 1963. (isso mesmo, no ano seguinte). Ele aparece relacionado com sua Mondial número 77, ao lado de outros nomes com os quais já estamos nos acostumando a ver: Luiz Bezzi e o filho Franco, Felipe Carmona Filho, Luiz Latorre, Antonio Carlos Aguiar, os irmãos Paolo e Gualtiero Tognocchi, Ivo Caprotti, Awentino Gallone, Delmar Muniz, Duilio Baumer… Como era comum na época e em anos anteriores, um livreto era impresso com todos os dados do evento, com uma lista enorme de autoridades, pilotos e suas motos e categorias, clubes, federações a que pertenciam e ainda os patrocinadores do evento.

Quis o destino (que também responde pelo nome de d. Juze Fittipaldi) que nosso campeão migrasse para os carros, o que acabou dando ao Brasil o bicampeonato da Fórmula 1, o título da Formula e Indy e o bicampeonato das 500 Milhas de Indianápolis, o que fez dele um dos maiores pilotos de todos os tempos.

História dos Fittipaldi no Motostory
Emerson estreou na motovelocidade em 1963, na última prova do Brasileiro de 1962 (Acervo Motostory)
História dos Fittipaldi no Motostory
Relação dos inscritos no Campeonato Brasileiro de Motovelocidade de 1962. Fittipaldi é o número 77 (Acervo Motostory)

Apesar da mudança de duas para quatro rodas, sua paixão pelas motocicletas nunca desapareceu. Em 1972, ao sagrar-se campeão mundial de Fórmula 1, ganhou de presente de Paco Bulto, criador da Bultaco, uma Pursang de cross de 250 cc (foto Emerson Bulto).

História dos Fittipaldi no Motostory
Emerson e Paco (Acervo Motostory)

Essa moto foi trazida ao Brasil pelo campeão e visitada pouco tempo depois, em sua casa no Guarujá, por Expedito Marazzi e seu filho Gabriel (quem nos cedeu esta foto).

História dos Fittipaldi no Motostory
Emerson, os Marazzi e amigos com a Pursang (Acervo Motostory)

Dia desses, Paulo Loco, que é um grande amigo dos Fittipaldi e também nosso amigo, restaurou, em parceria com a Legendary Motors, a Bultaco Pursang, repintada na cor original que imitava o grafismo do capacete do piloto.

Texto publicado na edição 247 da revista MOTOCICLISMO
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