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Projeto Motostory: Obrigado, Pressão!

7 Minutos de leitura

  • Publicado: 23/08/2020
  • Por: Willian Teixeira

Milton Benite: o legado de um motociclista de primeira grandeza!

Texto: Carlãozinho Coachmann
Fotos: Acervo Motostory

Vindo de uma família de origem espanhola, começou a trabalhar com motos aos 13 anos como ajudante na oficina de Carlos Alberto da Costa, ou Calet, como era conhecido. Tendo Calet como alicerce, foi depois trabalhar com Zé Carvalho, outro famoso mecânico e preparador de seu tempo. Aplicado desde jovem, Milton tinha uma máxima: “Amanhã quero ser melhor do que fui hoje!” Excelente piloto, arrojado e profundo conhecedor de seu ofício, percebeu que deveria ir para os boxes quando disputava provas ou assitia a seus ídolos Gualtiero Tognocchi e Salvatore Amato na pista. “Às vezes, olhando aqueles caras pilotando tão facilmente, eu achava que não pertencia àquela raça e que meu papel era mesmo ficar nos boxes” nos disse em uma de suas muitas entrevistas.

Milton Benite: o legado de um motociclista de primeira grandeza!
Milton Benite no seu melhor: chefe da equipe Formula G no Bol d’Or em 1977

Quem conviveu de perto com Benite, mais tarde simplesmente “Pressão”, sabe que nem nas pistas, nem nos boxes, ele aceitava facilmente a derrota. Ainda assim, teve a humildade de perceber que seu valor maior seria como preparador e chefe de equipe, e não como piloto, embora ele nunca tenha deixado de ser um.

Milton Benite: o legado de um motociclista de primeira grandeza!
O pequenino Milton Benite

Nesses anos de trabalho no Motostory, tivemos o privilégio de conviver com ele. Foram vários encontros ora em sua casa, regados por um papo adorável e pela comida maravilhosa de dona Yone (uma casa onde transbordava o amor), ora em nosso escritório em Indaiatuba, sempre acompanhado da filha Cristina. Ao longo desses encontros, ficou evidente seu orgulho pela carreira de preparador e chefe de equipe, e pelas proezas das equipes Formula G e Comstar nas provas internacionais de 24 horas que eles disputaram.

Milton Benite: o legado de um motociclista de primeira grandeza!
A Mondial 50 foi um desejo que ele nunca alcançou na juventude

Também ficou evidente o peso que ele carregava pelo acidente sofrido em 2007, nas sinuosas curvas da Rod. Anhanguera, em São Paulo, e as consequências desse acidente: “Carlão, quero gravar uma mensagem para que as pessoas parem de correr pelas estradas como eu fiz. Caí sozinho aquele dia e, felizmente, não atingi ninguém mais na estrada. Mas acabei atingindo as pessoas que eu mais amo nesta vida, que é a minha família. Agora, dependo deles, eu que sempre fui o arrimo da casa. Parem de correr nas estradas, por favor! Olhem para mim e reflitam.”

Milton Benite: o legado de um motociclista de primeira grandeza!
O grande parceiro Arnoldo Bessa e Milton Benite

Para honrar sua carreira de piloto, chefe de oficina, chefe de equipe, preparador e empresário, vamos focar justamente nos eventos que mais deram orgulho ao Milton e dar a devida dimensão do que eles representaram naqueles anos em que ousaram: as edições internacionais das 24 Horas de Bol d’Or em Le Mans.

Milton Benite foi um ás do guidão, mas preferiu ficar do lado de dentro dos boxes

Mas, antes de chegarmos às provas no exterior, é preciso voltar a Interlagos, 1976, nas 24 Horas do Brasil. Na que foi a quinta edição da prova, já que duas haviam sido disputadas nos anos 1950, ambas vencidas pela dupla Edward Pacheco e Caio Marcondes e sua belíssima BMW R65, a terceira em 1974, vencida pela dupla Denísio Casarini e Walther Tucano Barchi, de Yamaha, e a quarta em 1975, vencida por Nivanor Bernardi e Takachi Uchida, mais uma vez de Yamaha. Em 1976 a prova estava ganhando maior expressão, mas também apresentou muitos problemas. A vitória naquele ano ficou novamente com a BMW, dessa vez com a dupla Guy Tilkens e Dietmer Beinhauer. A Formula G, equipe comandada por Arnoldo Bessa e Milton Benite havia inscrito duas motos, a 750 com Zezo Pontichelli e Antonio Bernardo e a 500 com Fabio Sturlini e Paulé Salvallagio, dupla que chegou na terceira colocação, atrás de Walter Tucano Barchi e Ubiratan Rios, da equipe Red Zone, em segundo.

Encontro de velhos amigos em homenagem prestada pelo Motostory em 2016: Bernardo, ao fundo, de óculos, Arnoldo Bessa, Tucano, Benite e Cajuru. Só feras!

Aquela edição das 24 Horas ficou marcada pela polêmica, problemas com a organização e por um acidente fatal, o que culminou com o fim daquele tipo de corrida no Brasil mas, deixou uma fagulha na mente de Bessa e Benite: “Milton, você percebeu que a distância da nossa 24 Horas é maior do que a percorrida em Bol d’Or? E se nós fossemos correr lá?”

Os irmãos Vail e Wilson, Paschoalin enquanto Benite cuida da frente da fera!

Milton Benite nos disse durante a entrevista: “Aquilo ficou martelando a nossa cabeça e o Arnoldo, que era um entusiasta das corridas e acreditava nelas como ferramenta de marketing, começou a infernizar a vida da Honda do Brasil para que ela nos ajudasse a correr o Bol d’Or. Sabe o que aconteceu? Nós fomos… e fizemos história!”

Equipe Formula G, 5ª colocada em 1978: Edmar Ferreira, Walter Barchi, Osmar Gaeta, Benite, Paschoalin e Arnoldo Bessa

“Fomos por diversos anos competir nas provas de longa duração, sempre com uma equipe 100% brasileira. A pressão era enorme, pois havia uma classificação para que ‘apenas’ as 60 melhores equipes largassem. E nós largamos em todas. No primeiro ano fomos com uma Honda 550 e chamamos para pilotá-la o Tucano e o Paulé. Naquele ano conseguimos a 12ª colocação contra as motos de fábrica de 1.000 cm³, sem nenhum problema na máquina. Fomos  tão bem que o chefe da Honda Japão veio nos cumprimentar no box e nos ofereceu uma moto de 1.000 cilindradas caso quiséssemos voltar no ano seguinte, e ainda recebemos o prêmio de equipe mais combativa”, relatou.

Em Interlagos, 1971, Milton Benite (21) de olho em Tucano (5), seu futuro piloto

“Em 1977 recebemos a Honda CBR 1.000 que tinha vencido no ano anterior, mas cometemos o ‘pecado’ de pintá-la com as cores da Formula G, amarela com detalhes em azul. Passamos de sensação a desafeto com o pessoal da Honda Japão, pois todas as motos deles eram nas cores Honda, vermelha, azul e branca. Naquele ano chegamos a andar em terceiro, mas fomos derrubados por uma Honda oficial e quebramos a bolha. Acredita que não havia uma bolha de reposição para nós? Corremos sem bolha a noite toda, com temperaturas baixíssimas, com o Tucano e o Edmar Ferreira fazendo um trabalho brilhante, recuperamos posições e terminamos em quinto lugar e primeira equipe privada. Novo convite da Honda e da organização para voltarmos em 1978”, acrescenta.

No Enduro das praias, com Paraguaio e Santo Feltrin pela equipe Comstar

“Chegamos em 1978 com prestígio, mas o pessoal da Honda Japão seguia de nariz virado para nossa moto amarela. Nos deram uma moto que tinha sido usada nas 8 Horas de Suzuka, e a moto não tinha a ponta do virabrequim, portanto não tinha onde colocar o alternador e, sem alternador, sem luz. Na hora deu um tilt na nossa cabeça. Não podiam ter feito isso com a gente, mas fizeram. Bom, preparei um suporte para bateria e compramos várias baterias e um super carregador. A cada abastecimento trocávamos piloto e bateria e assim fizemos, mais um quinto lugar… e primeira equipe privada da prova.

Em 2007, Alex Barros usa a TV Internacional para dar mensagem de apoio a Milton Benite após seu acidente

Mas o melhor ainda estava por vir. Em 1979, com toda a experiência acumulada, finalmente recebemos a mesma versão de motor das equipes oficiais, mas em um chassi da revenda francesa Japauto. Com uma largada espetacular do Tucano, graças também à engenhosidade de Benite aqui que deixou a moto prontinha e aquecida, pulamos de 14º para terceiro logo no começo. Lutando nas posições da frente, garantimos a colocação durante a noite, ao percebermos que um trilho havia se formado na pista úmida pela chuva. Trocamos o pneu de chuva por intermediário sem que os concorrentes percebessem e garantimos o pódio histórico”, conclui.

A história continua e você poderá acompanhar os depoimentos em vídeo seguindo nosso site e redes sociais.

Texto publicado na edição 256 da revista MOTOCICLISMO
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