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O que mudou no mercado de motos com a Covid-19

14 Minutos de leitura

  • Publicado: 08/06/2020
  • Por: Isabel Reis

O mercado de motos mudou depois ter sido fortemente impactado pela Covid-19. Após três meses de quarentena, praticamente todas as marcas já voltaram a produzir nas fábricas de Manaus. As concessionárias começam a retomar o trabalho. E todos são obrigados a respeitar os procedimentos de higiene e segurança exigidos pelo poder público e elaborados com base nas orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS). Ou seja, temos adaptações muito relevantes em nossos hábitos por conta disso.

Para saber qual é o impacto da pandemia da Covid-19 para cada marca de motocicletas do mercado brasileiro, entrevistei as principais empresas. O resultado foi surpreendente, pois cada uma, do seu jeito, acabou achando soluções criativas para minimizar a crise.

As vendas seguiram no on-line

Perguntei para as marcas se as vendas se mantiveram, apesar de as concessionárias estarem fechadas. A resposta foi unânime: as vendas continuaram e foram utilizados todos os recursos possíveis, apesar das limitações criadas pela pandemia da Covid-19. Sem dúvida, houve uma mudança de paradigma no sistema de compras, não só de motos, mas de quase tudo. Cada vez mais pessoas aderiram ao e-commerce para adquirir produtos.

O que mudou no mercado de motos com a Covid-19
Vendas on-line foi uma boa solução para minimizar o prejuízo em meio à pandemia do covid-19 (Arte: Thomas Bento)

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A Honda explicou isso muito bem, nas palavras de Alexandre Cury, Diretor Comercial: “A pandemia da Covid-19 já alterou o comportamento de compra do consumidor, trazendo desafios e oportunidades às fabricantes. Por exemplo, houve crescimento na importância dos canais digitais de vendas e de relacionamento com os clientes.”

A busca por outros canais de vendas ocorreu com todas as empresas aqui entrevistadas. Waldyr Ferreira, Managing Director da Harley-Davidson para a América Latina, comentou: “Seguindo as recomendações dos governos, cada loja adotou um novo caminho que facilitou o acesso dos clientes à marca de maneira rápida e prática. Ou seja, as concessionárias continuaram atendendo por telefone, site, WhatsApp e redes sociais. Portanto, o tipo de atendimento ao cliente e os serviços de venda variam de concessionária para concessionária. Há concessionárias com serviço de entrega de motos, inclusive, e Test Ride a domicílio, por exemplo.”

Concessionárias mantiveram serviços de manutenção

A maioria das concessionárias funcionou no período de quarentena da pandemia da Covid-19 para atendimentos de manutenção. Assim, os serviços de oficina ou comercialização de peças e equipamentos aconteceram com agendamento e de portas fechadas.

A Yamaha explicou isso muito bem, dizendo que o setor de manutenção foi considerado atividade essencial e que a rede pode funcionar normalmente. A marca enfatizou que foi preciso uma organização como se fosse uma atividade de guerra, estipulando distanciamento social, e atendendo só mediante agendamento, para evitar aglomeração.

O comportamento das vendas

Apesar dessas medidas, as vendas caíram para quase todas as companhias. Em maio, a Honda representou 76,59% dos emplacamentos (no acumulado do ano foi de 78,69%). Durante o período de quarentena, de março a maio, a marca passou por uma queda de 52% nas vendas. Já nos cinco primeiros meses do ano, os emplacamentos caíram 33%. Alexandre Cury destacou: “Vale lembrar que em função da paralização dos Detrans em diversas cidades, nos meses de abril e maio, existe um volume de motocicletas vendidas que não foram emplacadas.”

A maioria das marcas sofreu forte queda na comercialização em virtude da pandemia (Arte: Thomas Bento)

Outro exemplo de retração de março a maio aconteceu com a Triumph, que caiu em torno de 48%. Renato Fabrini, General Manager da Triumph no Brasil, comentou: “Além do impacto da Covid-19, fomos fortemente impactados pelo aumento do câmbio, pois temos toda uma estratégia dedicada para a reavaliação dos custos operacionais no Brasil.”

BMW teve queda de vendas

A BMW também sentiu o impacto, como explica Julian Mallea, Diretor de Vendas e Marketing da fabricante bávara: “Mesmo com a liderança de mercado nos segmentos onde atuamos no Brasil, a queda nas vendas foi de 24% no acumulado do ano e de 44% no período de março a maio. Os mercados globais, não apenas o de motocicletas, foram afetados de maneira inédita diante deste novo cenário imposto pela Covid-19. Deste modo, nos preparamos para a queda na comercialização de BMW Motorrad, o que veio a interromper uma série crescente nas vendas, que culminou com o recorde da marca estabelecido em 2019.”

Ducati caiu menos

Já a Ducati teve uma queda muito menor do que estava esperando. Diego Borghi, CEO da marca, deu detalhes: “No acumulado de 2020, ficamos menos de 10% abaixo do ano anterior, o que nos deixou bem motivados para o segundo semestre, onde teremos importantes lançamentos. Acreditamos que o patamar deva se normalizar no quarto trimestre do ano, ou seja, a partir de outubro, momento que esperamos ter uma situação muito mais positiva relacionada a pandemia que estamos vivendo.

Husqvarna vendeu todo o lote

Para a Husqvarna a situação não foi tão difícil durante os três meses de quarentena da Covid-19, uma vez que essa marca trabalha com um mercado de nicho e bastante fiel. Raul Fernandes Jr., sócio da 2W Motors, que iniciou a importação do modelo para o Brasil no ano passado, contou: “Em abril e maio comercializamos praticamente todo um lote que havia chegado justamente no começo de abril. Tudo havia sido encomendado e foi vendido normalmente, havendo apenas um cancelamento. Depois, também comercializamos essa unidade.”

Como ficaram os empregos?

A preocupação social foi um ponto positivo para todas as marcas. Conforme as respostas, não houve demissão de funcionários até o momento. Alexandre Cury explica como foi a estratégia para a manutenção dos empregos: “A Honda firmou um acordo coletivo com o Sindicato dos Metalúrgicos de Manaus e adotou a suspensão temporária dos contratos de trabalho, para a maior parte dos colaboradores, por 60 dias, a partir do dia 4 de maio. Por meio de ajuda compensatória superior à exigida por lei, garantiu de 75% a 100% da renda líquida atual do colaborador. Para os trabalhadores que já retornaram às atividades, o fim do período de suspensão do contrato de trabalho foi antecipado.”

Nem todos reduziram os custos da operação

Quase todas as empresas entrevistadas reduziram os custos da operação. Entretanto, algumas optaram por manter as estratégias que já estavam montadas. Foi o caso da Factory Powersports, que trabalha com a KTM. Fernando Filie, Gerente de Marketing e Comunicação, contou: “Desde o início da nova gestão da marca pela Factory, a operação já estava bem ajustada e condizente com o cenário atual. Não foi necessário alterar nada.”

O mesmo se passou com a Royal Enfield, como disse Claudio T. Giusti, Country Manager da marca: “A nossa operação está em franca expansão, assim, não cabem medidas de redução de custos neste momento. Mas, sim, de continuar acreditando no nosso planejamento a longo prazo. Afinal, o Brasil é o país que oferece o maior potencial de crescimento para a Royal Enfield no mercado mundial de média cilindrada.”

A Kawasaki está cuidadosa quanto ao futuro, conforme contou Sonia Harue Ando, Gerente Comercial e Marketing: “Ainda é cedo para afirmar o que esta pandemia vai gerar de impacto nos negócios. O mundo todo ainda está buscando soluções e um entendimento, pois o consenso parece improvável, visto que a cada semana algo novo surge.”

A recuperação pode acontecer ainda no segundo semestre. (Arte: Thomas Bento)

Perguntas para cada marca

O mercado caiu durante a pandemia do Covid-19, mas não parou. Mesmo com portas fechadas, as soluções foram surgindo para minimizar os prejuízos e os danos sociais. Veja que outras respostas as marcas de motocicletas deram para esta reportagem:

Pergunta para a Honda – O grande crescimento da demanda por delivery, boa parte feito com motos, resultou em vendas de modelos como scooters e modelos de entrada?

“Sim, o crescimento da demanda por serviços de entrega durante o isolamento social tem contribuído para reforçar as vendas desses modelos de motocicletas. O hábito de consumo de produtos e serviços por meio de canais digitais, como os portais de e-commerce ou aplicativos, é uma tendência que já vinha em crescimento e que foi acelerada em função da pandemia. Sempre que um produto é comercializado de forma remota é necessário agregar o serviço de entrega, que por essência deve ser rápido e barato, para que o modelo de negócio seja viável. Nesse contexto, a motocicleta é uma alternativa extremamente competitiva, pela agilidade, economia e versatilidade. Aproveitamos a oportunidade para destacar a importância do entregador, profissional que tem tido papel fundamental para a vida de milhares de brasileiros. Ficamos satisfeitos em, por meio de nossas motocicletas, realizar essa importante contribuição social para os entregadores, para as empresas de entregas, as tradicionais como os Correios e outras de moto frete, para os negócios que hoje podem viabilizar sua operação por meio do e-commerce e para as famílias que necessitam dos produtos.” – Alexandre Cury, Diretor Comercial da Moto Honda da Amazônia

Alexandre Cury, Moto Honda da Amazônia

Pergunta para a Kawasaki – Quais as principais medidas tomadas pela sua marca durante a pandemia do novo coronavírus?

“Nossa prioridade era a saúde dos colaboradores. Inicialmente cuidamos daqueles que tem na Kawasaki sua segunda casa. Em um outro momento adaptamos as jornadas de trabalho segundo os tipos de atividades. Depois flexibilizamos os prazos para os concessionários. Sempre respeitando e cumprindo todas as orientações de higiene e protocolos de cuidados da OMS. Focamos nas pessoas! Estamos em regime de home office e rodízio, sem cortes e renegociações até o momento.” – Sonia Harue Ando, Gerente Comercial e Marketing da Kawasaki Motores do Brasil

Sonia Harue Ando, Kawasaki Motores do Brasil

Pergunta para a BMW – Foi necessário demitir ou foram tomadas outras soluções, como a renegociação de salários?

“No Brasil, o BMW Group tomou diversas medidas de contenção para combater os impactos da crise gerada pela Covid-19, sempre com foco na saúde e segurança de seus colaboradores. Financeiramente ações extras foram praticadas, dentre elas, contenção nas viagens, adiamento de promoções e aumentos salariais por mérito, proibição de horas extras, antecipação de férias e fechamento das fábricas e escritórios em todas as localidades do país. Para compensar a parada na produção se fez o uso de férias coletivas, banco de horas, antecipação de feriados e todas as ações possíveis para os colaboradores da fábrica do BMW Group em Araquari. Com a redução nas vendas e restrições de operação – atualmente apenas 60% dos concessionários podem operar normalmente por conta de restrições locais de operação do comércio (com os devidos cuidados de distanciamento social, máscara) – são necessárias medidas extras. Com foco na manutenção dos postos de trabalho, apoiado pela MP 936/2020 e, após esgotadas todas as demais ações de redução de custo internas, o BMW Group Brasil entrou em acordo com os colaboradores, que acordaram majoritariamente com a proposta de redução entre 15% e 25% na jornada de trabalho e de, no máximo 5% no salário líquido nos meses de junho, julho e agosto. Os benefícios, férias e demais acordos, assim como pagamento de bônus aos colaboradores pelo resultado de 2019, seguem mantidos. A medida garante ainda o número de postos de trabalho pelo dobro do tempo do acordo.” – Julian Mallea, Diretor de Vendas e Marketing da BMW Motorrad Brasil

Julian Mallea, BMW Motorrad Brasil

Pergunta para a Harley-Davidson – Que impacto a pandemia do coronavírus teve para a marca?

“Acreditamos que o mundo todo deve sofrer os efeitos econômicos deixados pela pandemia, seja no Brasil ou no mundo. Estaremos prontos a responder, alinhados com a evolução do mercado brasileiro. Ao longo dos últimos 117 anos, a Harley-Davidson enfrentou diversos momentos de crise e sabemos que não podemos subestimar os impactos da atual pandemia na economia e no ambiente de negócios em geral. Por outro lado, também sabemos da importância do mercado brasileiro e da relevância do nosso propósito de realizar sonhos de liberdade individual nesse momento pós-pandemia. Nossa rede de concessionárias e nossa fábrica em Manaus estarão prontas para responder à essa demanda. Acredito que só quando pudermos retomar as atividades cotidianas todos teremos condições de medir o que estamos chamando de “new normal” e como isso terá afetado cada setor da economia. Ao mesmo tempo esperamos que possa ocorrer uma mudança no comportamento do consumidor, valorizando os pequenos momentos da vida, o ócio e atividades que proporcionem bem estar de um modo mais amplo, e aí poderemos ter uma oportunidade com mais clientes buscando prazer e diversão em passeios de moto.” – Waldyr Ferreira, Managing Director para América Latina.

Waldyr Ferreira, Harley-Davidson Motor Company

Pergunta para a KTM – A marca já voltou a vender parcialmente em algumas regiões?

“Nossas concessionárias estão atuando de forma a seguir todos os protocolos de saúde e segurança recomendados pela OMS e operando de acordo com as normas regionais. Desta forma temos concessionárias abertas, parcialmente abertas, abertas com restrições e algumas fechadas. Desde o início da pandemia da Covid-19 nos organizamos para oferecer o atendimento 100% digital e serviços de delivery. Serviços esses que algumas concessionárias já realizavam e puderam apenas reafirmar seus benefícios ao cliente os mantendo seguros e assistidos.” – Fernando Filie, Gerente de Marketing e Comunicação da Factory Powersports

Fernando Fillie, KTM/Factory Powersports

Pergunta para a Triumph – Qual legado a pandemia do novo coronavírus deixou para sua marca?

“Não acredito que o impacto Covid-19 possa ser resumido em um único legado. Estamos experimentando uma nova maneira de se viver, que veio sem nenhuma opção ou preparo antecipado. Esta nova situação nos obrigou, da noite para o dia, a mudar a nossa forma de trabalhar, a forma de nos relacionarmos como nossos clientes, nossos familiares e passamos a usar tecnologias que antes não eram utilizadas. Isso nos mostrou a necessidade de uma revisão geral sobre os negócios de cada empresa independente do segmento e, o pior, nada disto estava nos nossos planos. Acredito que podemos mencionar alguns legados, entre eles, toda a Revolução Digital que estamos sendo submetidos e que não há mais volta. A atenção especial e a solidariedade amplificada ao próximo que a própria situação nos impôs, seja ela no trabalho ou em casa, também não tem volta. O home office criando uma nova forma de se trabalhar e impactando na mobilidade das pessoas. Sem sombra de dúvida impactou em todas as empresas e na Triumph também. A pandemia impactou não só a Triumph, mas o mundo e muitos destes legados não tem mais volta e servirão de aprendizado para o futuro.” – Renato Fabrini, General Manager da Triumph Motorcycles Brazil

Renato Fabrini, Triumph Motorcycles Brazil

Pergunta para a Yamaha – Qual o período esperado para a recuperação de vendas, para voltar ao patamar de 2019?

“Neste momento é impossível definir um horizonte exato. Seguramente não voltaremos, neste ano de 2020, aos números de 2019, pois houve drástica redução de produção, e o que deixou de ser produzido nesse período não será compensado ao longo do ano. Embora a motocicleta seja apontada como uma das beneficiárias do “novo normal” no período pós Covid-19, fatores como a elevada inadimplência, elevado número de desempregados, a alta de juros e a avaliação mais criteriosa das instituições financeiras na concessão de crédito, devem barrar um esperado aumento vertiginoso. Mas não é possível oferecer um número neste momento.” – Resposta corporativa da Yamaha Motors do Brasil

O que mudou no mercado de motos com a Covid-19

Pergunta para a Husqvarna – Que medidas tomadas em função da Covid-19 continuarão existindo no seu negócio?

“O grande legado será o atendimento agendado e o atendimento on-line. Essas medidas serão implantadas no futuro e isso vai ajudar, porque ficou cômodo para nós e para os clientes. Outro legado é que percebemos que havia uma grande possibilidade de redução de custos. Isso também vai acabar ficando para o futuro.” – Raul Fernandes Jr., sócio-proprietário da 2W & Fernandes Group

O que mudou no mercado de motos com a Covid-19
Raul Fernandes Jr., Husqvarna/2W & Fernandes Group

Pergunta para a Royal Enfield – Com a crise, as pessoas podem passar a utilizar mais motos do que automóveis?

“Em conversas contínuas com nossos clientes, amantes da marca e também nossos concessionários, percebemos claramente esta tendência, uma vez que oferecemos um veículo acessível, que pode ser usado para o lazer, para o transporte do dia a dia com a segurança e com o distanciamento social tanto defendido atualmente. E pensando nisso, a Royal Enfield, assim como toda rede de concessionárias, já estão preparadas para atender este anseio que brotou ainda mais forte mesmo naqueles que não pensavam em pilotar uma motocicleta.” – Claudio T. Giusti, Country Manager da Royal Enfield para o Brasil

O que mudou no mercado de motos com a Covid-19
Claudio Giusti, Royal Enfield Brazil

Pergunta para a Ducati – Na visão de vocês, haverá mudanças no comportamento do consumidor após todas essas mudanças no cotidiano?

Já estamos observando uma mudança no comportamento do consumidor desde uns bons anos atrás. Esse momento único na história da humanidade, provavelmente acelerou boa parte do processo, principalmente quando falamos da jornada online de compra do consumidor. No mercado em geral, pudemos observar que a telemedicina cresceu exponencialmente, que praticamente todos os brasileiros tiveram que acessar suas contas bancárias através de canais digitais, um aumento exponencial de compras de alimentos e utensílios domésticos de forma remota, entre outras centenas de exemplos nesse sentido. No nosso mercado, especificamente, também sentimos um avanço muito rápido, onde o teleatendimento ganhou força, em conjunto com a experiência “at home” (seja com test ride sendo levado até a residência do cliente, vendas de motocicletas ou mesmo serviços nas motocicletas). Algo que acreditamos bastante é que quando o ser humano experimenta algo e sente que é melhor do que ele tinha até então, a chance de voltar para o que existia antes é bem pequena.

O que mudou no mercado de motos com a Covid-19
Diego Borghi, Ducati do Brasil