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Motostory: Nada é por acaso (parte 2)

9 Minutos de leitura

  • Publicado: 18/10/2020
  • Atualizado: 23/10/2020 às 8:53
  • Por: Willian Teixeira

Criar, aprender, cair e levantar. Inúmeras vezes. E seguir, seguir, seguir… Levantando! Ou a carreira do piloto Eric Granado!

Texto: Carlãozinho Coachmann
Fotos: Acervo Família Granado/Motostory/Chris Fabbri

O ano de 2018 terminou com disputas acirradas nas pistas no Brasil entre dois gigantes da motovelocidade brasileira, de duas gerações e épocas diferentes. Eric Granado foi o campeão do Superbike Brasil, e Alex Barros o vice, vencendo as duas últimas etapas realizadas em Interlagos, na capital paulista.

Motostory: Nada é por acaso (parte 2) - Eric Granado

Amigo de ambos, confesso que fiquei de coração partido. Torcer pelo genial e longevo Alex Barros ou pelo brilhante e jovem Eric Granado, não mais uma promessa, mas uma realidade? Torci apenas para que terminassem bem o ano. Sobre Alex, espero que o Olimpo do esporte e da vida dê a ele tudo que seus brilhantes anos de carreira nos deram, e que a grande pessoa em que se tornou merece. Ao Eric, ainda quero vê-lo campeão mundial de motovelocidade… Se ele acredita, e eu sei da força da crença dele, eu também acredito.

Motostory: Nada é por acaso (parte 2) - Eric Granado
Era uma bicicletinha, mas na cabeça dele uma moto

O início foi parecido? Família investindo, obstinação, talento… Sim e não! Explico: Eric Granado nasceu em São Paulo em 10 de junho de 1996. Filho de Rose Granado e do também piloto Marco Granado — Marquinho, como muitos o conhecem, também participou de provas de motovelocidade sem nunca ter se transformado em piloto profissional. Ainda assim, sempre foi e continua sendo um apaixonado pelo esporte. Eric é também o irmão mais novo da Nicole. Quando ainda estava na barriga da mãe, uma conversa entre os amigos Marco e Santo Feltrin parecia prever o que viria a acontecer com o menino: “Pronto, Santo, fiz o menino! Agora você vai me ajudar a fazer o piloto!”

Motostory: Nada é por acaso (parte 2) - Eric Granado
Os primeiros troféus foram conquistados nos kartódromos paulistas, e não nos autódromos

Mas a caminhada até o Mundial, sair dele, vencer o Europeu, voltar ao Mundial, sair dele e voltar para o Mundial de elétricas não foi fácil… Não é fácil. A diferença do que acontece hoje, quando Eric começou não havia no Brasil uma categoria para a garotada começar na velocidade. Todo mundo sabe da importância desse estágio nas pistas, convivendo com pilotos de outras categorias, com os rituais das corridas, mesmo que as motos usadas aqui pela garotada ainda estejam longe das de lá, das categorias que preparam para o Mundial. Apenas o motocross brasileiro oferecia essa possibilidade naqueles tempos, mas este não era o desejo da família, nem dele. Como fazer, então?

Motostory: Nada é por acaso (parte 2) - Eric Granado
O mentor Santo Feltrin e Eric Granado, ambos Motostory. A parceria que moldou a carreira de Granado

Depois de colocar a primeira moto na garagem, era preciso procurar oportunidades para competir. Já que não havia espaço nos autódromos, os kartódromos poderiam ser uma alternativa, mas era preciso achar outros pais loucos por velocidade e com filhos mais ou menos da mesma idade. Procurando nos boxes de Interlagos mesmo, e depois nos kartódromos, não foi difícil encontrar os primeiros parceiros de pista, os irmãos Antônio e Pedro Casalinho, filhos do também piloto Hilário. As primeiras arenas? Os kartódromos de Interlagos e Itu. Neste último acontecia o campeonato de velocidade de motos de pequena cilindrada Schincariol, promovido pelo Alberto Pelegrini, do Megacycle.

Motostory: Nada é por acaso (parte 2) - Eric Granado
Eric Granado à frente de Guevara pouco antes de ir ao Mundial

Neste ambiente também começaria o convívio com outros membros da família Barros, que eles já conheciam dos boxes de Interlagos. Aurélio Barros sempre frequentou todo tipo de pista de velocidade e também começava a ensinar o sobrinho Lucas, filho de Alex, no oficio do kart e das motos, junto com o irmão Coelho. Falante, divertido e de olhar crítico, logo Aurélio estava puxando a orelha de Eric e do próprio Marco Granado. A parceria ficaria tão forte no início da carreira de Eric que Aurélio ganhou o título de “Vô”. Pista, pista, pista e mais pista. A rotina: carrega a motinho, encontra macacão que sirva, coloca gasolina, liga o cronômetro, e viaja, e estrada, e pista e mais pista. A brincadeira aos poucos vai virando uma rotina esportiva, de treinamento, exigente tanto para o garoto como para quem estava em volta dele.

Motostory: Nada é por acaso (parte 2) - Eric Granado
Categorias em que motos e equipamentos eram iguais, Eric saiu vencedor competindo contra garotos que hoje, quando a força do mercado faz diferença e as marcas que acreditam no mundial ditam o rumo de muitas carreiras, estão em posição melhor do que ele

A cada estágio cumprido, novos desafios, novos parceiros e apoiadores. O Brasil via Eric crescer nas pistas e a comunidade da motovelocidade participava disso.

O Brasil era pequeno para ele!

À diferença de Alex, que se mudou para a Europa relativamente cedo e foi aos poucos se firmando às custas de muito suor e lágrimas, Eric começou sua “aventura” na Europa indo e vindo. E o custo de ir e vir era alto em todos os aspectos. No financeiro nem se fala, mas também no que diz respeito à adaptação. Ir e ficar é uma coisa, tem um custo emocional enorme também, mas, se você sobrevive, vai se moldando aos poucos ao padrão de vida que rege o Mundial. Ir e vir exige uma outra coisa. Mudar de um fuso para outro, de um tipo de moto para outra, de um tipo de corrida para outra, ou para diferentes comidas, camas e pistas. Mas a única saída era sair, e a Espanha era o caminho.

Motostory: Nada é por acaso (parte 2) - Eric Granado
Um dos primeiros encontros com VR46. Eric se transformou um tremendo imitador das entrevistas do piloto italiano

Além disso, a cada fase de aprendizado era preciso testar novamente o desejo do menino. Será que a escola, a puberdade, as festas ou as garotas conseguiriam tirá-lo do sonho de ser piloto profissional? Talento ele tinha, força de vontade também, mas era preciso testar de verdade a sua determinação e seu potencial. Encantado com o mundo a sua frente, Eric passou a ter a certeza de que este era seu destino: ser um piloto de motovelocidade. “Desde cedo percebi no Eric uma vontade a mais e, quando foi dada a chance de conhecer o exterior, ele incorporou definitivamente o personagem piloto”, lembra Santo Feltrin. O menino entendeu logo que era preciso de apoio, precisaria se expor, aprender a falar com a mídia e a se portar carregando no peito seus apoiadores. Quem viu de perto suas primeiras entrevistas pôde acompanhar sua transformação de criança em piloto, quase num piscar de olhos.

Depois dos títulos no Brasil, vieram os bons resultados nas categorias de entrada nos torneios espanhóis e do Mediterrâneo. A cada nova fase cumprida na Europa, o retorno ao Brasil e à rotina de conciliar escola e os treinos nas pistas brasileiras, bem ali, na frente de todo mundo. De carro, pai e filho frequentavam todo tipo de pista e eventos, muitas vezes acompanhados da mãe e da irmã. Track days, campeonatos regionais, provas de supermoto, qualquer evento que respirasse moto poderia ter o menino Eric presente. E ele estava lá. No começo muito “tio” ensinava o garoto. Davam para ele “a linha certa”. Com o passar do tempo não ficaram muitos “tios” capazes de andar na frente. Na verdade, nenhum. Não dava mais.

Mesmo decidido a ser piloto, era preciso testar sua determinação. Seguir adiante mesmo quando as coisas não (davam) dão certo, levantar (literalmente) depois de cada tombo, fosse na pista, fosse na carreira, acabou se tornando uma marca registrada dele. Ao longo do caminho, com a família por perto e um pequeno grupo de amigos, era preciso encontrar o apoio político e o dinheiro para que fosse possível atravessar o Atlântico mais vezes, em categorias mais caras. Aí, mais uma vez, o “fator Barros” entra em cena. Alex deixa o Mundial e Eric estava lá para ver, em sua última corrida. “Vou levar o Brasil ao Mundial de novo, Alex, eu prometo!”

O fator Brasil!

Durante boa parte dos 21 anos em que Barros representou o Brasil no Mundial, nosso mercado de motocicletas pouco significava no cenário global. Obter apoio para um brasileiro quando o mercado que você representa é pouco significativo custou a Alex mais boas oportunidades em motos e equipes oficiais. Perseverante, marrento e muito talentoso, foi um dos protagonistas do Mundial por mais de duas décadas e talvez o melhor piloto não campeão mundial da História, e melhor que alguns campeões de sua geração.

Motostory: Nada é por acaso (parte 2) - Eric Granado

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Nada é por acaso (parte 1) – o início de Alex Barros

Quando Eric chegou às portas do Mundial, com apoio da Cosan (Mobil), não havia montadora que desse apoio ao garoto. Não havia um projeto nacional que o levasse lá, que abrisse portas, que lutasse por boas vagas em boas equipes. Era preciso, assim como Alex, que ainda teve o empresário Pedro Faus por perto durante algum tempo, enfrentar os leões sozinho e mostrar seu valor.

Motostory: Nada é por acaso (parte 2) - Eric Granado
A parceria com Serginho vai muito além das pistas. É um de seus principais incentivadores

Mesmo representando nesta altura o 6º maior mercado de motocicletas do mundo, temos nosso mercado dominado, em termos de participação, por apenas uma marca. Não há briga por “share.” Porque então investir em um brasileiro lá fora? E é aí que entra o fator país. Que país você representa? Que tamanho de mercado? Quais marcas dividem este bolo e de que forma? Seu país está no calendário do Mundial? Faz algo ou participa de alguma forma do evento? Tem categorias de base vinculadas ao Mundial para criar novos pilotos? Sim, há mais espaço. Não, então se vira. Espanha e Itália são os maiores celeiros da velocidade mundial atualmente, mas grandes investimentos estão acontecendo em outros cantos do planeta (com a ajuda da Dorna, promotora do Mundial) para que outros países “doem” pilotos, afinal, é um Campeonato Mundial. Em todos esses países a briga pela liderança de mercado é intensa, e ter um ou mais representantes no Mundial pode fazer muita diferença para as marcas. Aqui não.

Mas o “moleque” é osso duro de roer. E tem ao seu lado um grupo de amigos que o levou até o Mundial mais de uma vez, e que se mantém ao seu lado quando as coisas não dão certo.

Motostory: Nada é por acaso (parte 2) - Eric Granado
A família tem um significado muito especial na vida de Eric

Hoje, mesmo com copas nacionais tecnicamente defasadas em relação às motos que competem nas categorias usadas nas bases do mundial, os frutos estão surgindo. A rotina de pista ensina muita coisa, nos circuitos e fora deles. Novos garotos estão cruzando o oceano em busca de um lugar em eventos internacionais, sonhando um dia estarem no Mundial… Sonhando um dia serem campeões. Ainda bem: outras famílias, outros pais obstinados, outros sonhadores…

Mas Eric já está lá e, na minha opinião, ainda não teve a oportunidade de mostrar todo seu talento, com contrato e tempo em equipes de ponta. Com tudo que Alex Barros conquistou em sua carreira de piloto, mesmo com o investimento que a Honda Brasil fez por alguns anos, tenho certeza de que faltou mais Brasil ao lado dele. E sim, Eric Granado também precisa de “mais Brasil ao seu lado”.

Orgulho da bandeira brasileira e do país que representa
A força do ídolo: Eric com Alex Barros em sua última temporada na MotoGP…
e, no detalhe, algum tempo atrás

Texto publicado na edição 255 da revista MOTOCICLISMO
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