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Motostory: Nada é por acaso (parte 1)

10 Minutos de leitura

  • Publicado: 04/10/2020
  • Por: Willian Teixeira

Sorte, amor, dedicação, firmeza de propósito, oportunidades… obstinação! Ou, o início de Alex Barros!

Texto: Carlãozinho Coachmann
Fotos: Acervo Alex Barros / Motostory

Os primeiros anos de alguém no esporte (qualquer esporte), são muito parecidos. Na maioria das vezes crianças são apresentadas ao novo “brinquedo” pelos pais, apaixonados pelo tema. O brinquedo aos poucos vai ganhando mais espaço na vida da criança, a coisa vai se tornando séria e quando menos se espera, você está no Mundial da sua modalidade! Voilá! Como diz o dito: “Só que não!”

Como foi então que aquele garotinho, filho do açougueiro imigrante português e da dona de casa, irmão de outros dois rebentos, ficou durante 21 anos entre os melhores pilotos de moto do mundo, venceu GPs em dois mundiais diferentes, venceu duas vezes as 8hs de Suzuka e ainda foi por 5 vezes o quarto melhor piloto da categoria rainha?

Motostory: Nada é por acaso, Alex Barros (parte 1)

Nas linhas seguintes, uma rápida amostra de como tudo começou. Alexandre Abrahão de Barros nasceu na Maternidade de São Paulo, às 21hs do dia 18 de outubro de 1970, filho de Antônio Vasconcellos Coelho Barros e Maria Elzi Abrahão Barros. Uma criança como outra qualquer, que foi vacinada como era costume já naquele tempo, apresentada ao Judô ainda pequenino (padrão para muitos garotos de classe média da época), assim como ao ciclismo (esporte do pai, que já competia com apoio da Caloi), ao minibuggy e à motocicleta, tudo muito cedo.

Sua primeira moto foi uma pequenina Italjet 50, usada também pelos irmãos Cesar e Simone, ora pilotando na rua na frente de casa, ora pelas ruas e avenidas da Cidade Universitária, em São Paulo, aproveitando os dias de treino de ciclismo do pai. Quem conhece a família um pouco mais de perto, sabe que a personalidade forte de Alex, herança da mistura do caráter de seus pais, mais seu próprio gene, logo apareceram.

Motostory: Nada é por acaso, Alex Barros (parte 1)
Primeira moto, Italjet 50

As primeiras fotos dos pequenos Barros deixam transparecer que ali existia um Barros “marrento”, competitivo e teimoso… teimosia que mais tarde se transformaria em obstinação. Enquanto a maioria brincava de competir, Alex brigava contra os maus resultados, contra sua própria insatisfação nas derrotas e alimentava, ainda precoce, uma enorme vontade de vencer desafios.

Foi assim no judô, foi assim no ciclismo, até que estreou na categoria Ciclomotores na 2ª Taça Governo do Estado, 7ª etapa do Campeonato Paulista de Motociclismo – Velocidade, em Interlagos, nos dias 23 e 24 de setembro de 1978, dias antes de completar oito anos. A categoria já existia há dois anos e o campeão daquela temporada seria José Escalona, ou Zé Diego, de dez anos, filho do espanhol Diego Moreno Escalona, da San Diego. Gilberto Penteado (Suzuki), com 20, era o mais velho daquela categoria no evento, e a maioria, como José Três Rios, tinha entre 12 e 14 anos. Mas, dando mostras do que estava por vir, foi o pequenino Alex, de longe o mais novo naquele dia, o vencedor logo na estreia.

Motostory: Nada é por acaso, Alex Barros (parte 1)
Estreia com vitória na categoria ciclomotor, em 1978

Em 1979, na primeira temporada completa na categoria Ciclomotor surgiu o primeiro patrocinador, justamente a Caloi, e também o primeiro título. “Me lembro de um encontro com o Sr. Bruno Caloi, que resolveu me apoiar. Ele estendeu a mão para me dar o dinheiro do patrocínio/prêmio e eu não sabia o que fazer com aquilo. Não “Seu” Bruno, pra mim não! Dá pro meu pai!” – lembra Alex Barros de seu encontro com Bruno Caloi, um sobrenome que já era sinônimo de bicicleta e que foi fundamental nos primeiros anos do pequenino Barros.

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De quem Alex herdou a pinta de marrento? Seria do pai, Sr. Coelho?

Quando começou a se destacar, e a vencer corridas, os pilotos (e pais de pilotos) se reuniram para reclamar que ele era muito leve, e por isso levava vantagem. Fizeram um protesto formal e o “seu Eloi” (Gogliano) chamou a todos para uma reunião. O Sr. Antônio, ou “seu Coelho” como muitos já o chamavam, foi, claro! Com aquela cara de bravo que ainda pode ser vista nos boxes de Interlagos até hoje, incomodado com as reclamações, aguardou quieto o veredito: Tem que pôr lastro na mobilete do pequeno Alex. “Vocês têm certeza?”, perguntou seu Antônio. “Então assina todo mundo que vai ter que colocar o lastro.” E todos assinaram. Foi quando ele sacou do bolso um bolo de recibos de treino em Interlagos. Era uma quantidade impressionante de recibos. “Vocês estão perdendo porque não treinam o suficiente. Vai por o lastro? Certeza? Assinaram? Ótimo! O Alexandre vai bater o recorde agora. Como ele é muito leve, tem dificuldades em “colocar” a motinho nas curvas. Com o lastro vai melhorar. Não fizemos antes porque não sabíamos se podíamos ou não. Agora vocês vão ver.” E viram. Lembra “Seu” Coelho quando fala dos primeiros anos com os filhos.

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Alex Barros e José Escalona (Zé Diego), seu primeiro adversário no ciclomotor

Mas e o Cesar, o irmão mais novo? Cezinha vinha junto, claro, e corria também. Os irmãos chegaram a brigar pela vitória na mesma categoria e cada um conta uma versão das disputas. Mas César foi vítima de uma enfermidade. Ficou sem andar dar por mais de ano. Digo, andar a pé. “Meu irmão precisou reaprender a andar. Foi uma época difícil para a família. Quando ele mais tarde pôde voltar a andar de moto, muita coisa já tinha acontecido. Aquele momento tinha passado e ele só foi ter novas oportunidades muito mais tarde.”

A rotina de treinos era intensa: “Acordávamos muito cedo eu e meu pai, e íamos para Interlagos treinar antes da escola. Ele conseguia que a gente andasse umas tantas voltas antes dos carros e motos entrarem na pista. E andávamos e andávamos… eu saia correndo depois do treino e chegava suado na escola. Muitas vezes, antes do autódromo fechar, voltávamos lá no final da tarde. E fomos fazendo amizade com quem cuidava e íamos ficando até escurecer. Mais de uma vez o pai foi para a pista com a Caravan dele atrás de mim, sozinhos, para iluminar o caminho. E eu ia ficando mais rápido, mais rápido… até que um dia, me lembro direitinho de ouvir um barulho atrás de mim e ver – claro – escuro, claro – escuro. Olhei para trás e ele tinha rodado na pista tentando me seguir. Já não dava mais para a Caravan.”

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Os irmãos Alex e Cesar Barros disputaram provas juntos no início da carreira

As referências: É preciso lembrar que, quando Alex chegou na motovelocidade, gênios como Walter Tucano Barchi, Edmar Ferreira, Gualtiero Tognocchi, Milton Benite, Adu Celso, Denisio Casarini, Jacinto Sarachú, Antônio Jorge Neto (Netinho – apenas um pouco mais velho que Alex) estavam lá. Muitos eram referência para ele e da mais alta qualidade.

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A Caloi seguiu com Barros em seus primeiros anos de carreira

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A cada etapa da evolução de um piloto uma referência na vida marca aquele momento, aquela fase. “Quando fui para a 125 cheguei a dividir a pista com o “Tucano”. Denísio, que eu também admirava muito, não consegui andar junto na época. Era um dia de treino e motos de diferentes categorias podiam andar juntas. Era no anel externo de Interlagos. Ele estava de Honda 450 e eu de Yamaha 125 especial, e elas andavam parecido. Resolvi ir na rabeta dele e ver o que dava. Tucano tinha uma pilotagem limpa, mas era muito rápido e seguro. A CB balançava mais que a minha, mas ele não se mexia… e como era rápido. Me lembro de descer a reta oposta atrás dele e pensar: Vou fazer a curva 3 com ele, seja como for! Desci junto e entrei… e então pensei… morri, morri, morri… não morri! Ufa! E aprendi a fazer aquela curva como nunca tinha imaginado ser possível antes daquele dia. Ah! E bati o recorde da pista para minha categoria naquela volta, na cola do Tucano.”

Barros foi apresentado à família Ippolito, da Venemotos, onde Lavado era o campeão Mundial

À medida que subia de categoria, as coisas da moto iam ficando cada vez mais sérias. O menino era precoce, sempre o mais novo a cada nova etapa, mas era preciso conciliar com os estudos também. A disposição para treinar sempre foi plena. Desde muito cedo ele foi condicionado pelo pai a passar horas conhecendo a si mesmo, às suas motos e equipamentos, e os circuitos por onde passava. Os custos aumentaram, claro, mas a família estava disposta a investir, e os patrocinadores começavam a acompanhar o menino.

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“Quando pilotava a 125, cheguei a treinar junto com o Tucano. Achei que ia morrer.”

A Caloi permaneceu com ele por todo o inicio da carreira, mesmo quando ele não andava mais com sua mobilete. Tanto na 50 como na 125, lá estava o Sr. Bruno. Alex foi campeão de ciclomotores, 50cc e vice na 125 usando a famosa marca de bicicletas no macacão. Quando chegou nas 250 inda nas provas nacionais, já era um garoto “experiente” com apenas 13 anos.

Na década de 1980, o motociclismo de velocidade no Brasil estava se afastando das referências dos campeonatos mundiais, salvo raras exceções. A dificuldade de trazer motos de competição e de manter categorias funcionado por aqui cresciam. O alto custo de motos e peças especiais inviabilizava muitas categorias em tempos de importações fechadas. Mas o Brasil tinha novos e jovens talentos, e eles precisavam voar.

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Foi a Amparo Racing / Motostport de Pedro Faus que abriu definitivamente o Mundial para Barros

Netinho, pouco mais velho que Barros, já se aventurava em provas no exterior depois de vencer as categorias aqui. Participou das 100 Milhas de Daytona em 1982 com apoio da Shell Yamaha e caiu quando estava em quarto. Em 1983, com uma equipe privada, foi aos Estados Unidos e venceu a prova. Também participou de etapas do Mundial com resultados expressivos.

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Barros ingressa no Mundial na categoria 80cc, aos 15 anos

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A família Barros sabia que o garoto precisava de oportunidades. Com a benção de Eloi Gogliano, (mais uma vez ele, que ainda vai aparecer em muitas reportagens do Motostory) presidente da CBM e importante personagem do motociclismo brasileiro e sul-americano, os Barros foram levados a conhecer a poderosa família Ippolito, donos da Venemotos, equipe Venezuelana referência no Mundial e campeã com Johnny Cecotto e Carlos Lavado. O “mundial” então ficou sabendo daquele pequeno brasileiro.

Na categoria 250, um ano na equipe Venemotos. Sem Yamaha oficial na renovação, voou para a Cagiva 500

Novos capítulos, sonhos mais altos e novos parceiros. Surgia na vida de Alex a equipe Amparo / Motostort e a figura de Pedro Faus, o empresário de origem Catalã que ajudaria a transformar não apenas a carreira de Alex, mas parte do motociclismo brasileiro na década de 1980. Faus foi o responsável por abrir definitivamente o mundo para Alex. Primeiro, montou no Brasil equipe com estrutura para que jovens talentos da velocidade se mantivessem. O próprio Neto fez parte do time. Depois, com seus contatos na Espanha, levou Alexandre a conhecer o espanhol (também catalão) Jaime Alguersuari, criador da revista Solo Moto e de importantes iniciativas para a criação de novos valores do motociclismo, como o Criterium Solo Moto, campeonato de formação de pilotos de onde saíram muitos pilotos espanhóis relevantes, como Sito Pons, campeão Mundial das 250 e mais tarde dono da equipe Pons para quem Barros pilotou por anos, e a prova Super Prestigio, que se realiza ate os dias de hoje. As portas do mundial estavam abertas. Mas esta é uma outra parte da história.

Pedro Faus levou Alex ao Mundial e foi seu manager durante vários anos

Texto publicado na edição 254 da revista MOTOCICLISMO
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