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Motocicleta, uma terapia pós-traumática

4 Minutos de leitura

  • Publicado: 26/08/2016
  • Por: admin

<p><strong>Quantas vezes você criticou</strong> a espuma do banco da moto, reclamou por ter de colocar a capa de chuva ou resmungou contra os dedos duros naquele dia de frio?<strong> Depois de ler esta matéria, você vai repensar tudo isso.</strong></p>

<p><strong>Alexandre Godoy</strong>, de 45 anos, é um verdadeiro samurai, um guerreiro, que <strong>faz em média 300 quilômetros por dia com sua Yamaha Ténéré 250</strong>. Há mais de 10 anos na mesma empresa de courier, já se tornou um entregador de luxo, pois ele não faz entregas comuns dentro do mesmo bairro. Gosta de encarar os roteiros mais longos, do tipo São Paulo (SP) a Presidente Prudente (SP) — mais de 1 000 km entre ida e volta — e muitos outros para o litoral de São Paulo. </p>

<p><img alt="Alexandre Godoy e sua moto" src="http://carroonline.terra.com.br//motociclismoonline/staticcontent/images/uploads/motociclismo_alexandre_tenere_250_7_620x467.jpg" style="margin: 0px auto; display: block; width: 620px; height: 467px;" /></p>

<p><span style="line-height: 1.6em;">Tudo isso seria absolutamente normal se não fosse por um detalhe.<strong> Alexandre não tem a perna esquerda.</strong> E, diferentemente de um samurai de cara emburrada, ele faz isso sempre sorrindo. Isso mesmo, você leu certo, esse cara sempre de alto-astral, atleta e motociclista perdeu quase a totalidade da perna esquerda, que é responsável por acionar o câmbio da moto e, evidentemente, ajudar no posicionamento e no equilíbrio necessários para pilotar. </span></p>

<p><strong>Alexandre sofreu um acidente quando tinha 23 anos de idade</strong> e, ainda no hospital, pegou uma infecção hospitalar que o levou à amputação de quase toda a perna e parte dos dedos das mãos. Ficou 45 dias no hospital, mas menos de três meses após ter alta percebeu que sua vida seria pior se não pilotasse uma moto.</p>

<p>Hoje, mais de 20 anos depois, Alexandre teve incontáveis motocicletas. Já até pilotou no circuito de Interlagos com uma Honda CB 500 e<strong> sempre que pode se inscreve em algum curso de pilotagem. </strong></p>

<p><img alt="Bastou arrumar uma maneira de empurrar o pedal para baixo e puxá-lo para cima e pronto. O resto ficou fácil" height="467" src="http://carroonline.terra.com.br//motociclismoonline/staticcontent/images/uploads/motociclismo_alexandre_tenere_250_2_620x467.jpg" style="margin:0 auto; display:block;" width="620" /></p>

<p>Através de um dispositivo mecânico, que liga o pouco que sobrou da sua perna ao pedal de câmbio, Alexandre consegue abaixar ou levantar o pedal de câmbio e, assim, não demonstra qualquer dificuldade para trocar as marchas. O aparato não passa de uma haste de metal soldada no pedal de câmbio e uma pequena fita de velcro na outra extremidade que ele prende à roupa, mais nada.</p>

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<p>“Às vezes até esqueço que não tenho uma perna, e isso normalmente acontece quando estou na estrada com a minha motocicleta. Moto é o meu maior e mais eficiente remédio. Fico louco se ficar parado dentro de um carro” </p>
</blockquote>

<p>Tudo muito simples, sem nenhum projeto da NASA nem materiais nobres como titânio ou carbono, é tudo muito simples, leve e funcional. O par de bengalas que fica preso do lado da moto é para incursões mais longas a pé, mas é surpreendente o seu equilíbrio mesmo sem as bengalas.</p>

<p>Como se não bastasse subir escadas, pedalar, pular de paraquedas, nadar, correr de bugue e dirigir carros automáticos, o mais surpreendente é ver a agilidade com que pilota a sua Yamaha Ténéré 250. E pensar que nós, às vezes, reclamamos do frio ou da chuva antes de subir na moto.</p>

<p><img alt="Curvas à esquerda são tão simples quanto para à direita. Com uma capacidade incrível de previsão, ele sempre está atento ao momento de colocar o pé no chão" height="467" src="http://carroonline.terra.com.br//motociclismoonline/staticcontent/images/uploads/motociclismo_alexandre_tenere_250_6_620x467.jpg" style="margin:0 auto; display:block;" width="620" /></p>

<p>Se ele fizesse isso com uma city de 125 cm³ ou um pequeno scooter, já seria incrível, mas com uma Ténéré 250 é chocante. Detalhe! <strong>Alexandre rodou mais de 100 000 km em um ano com essa moto</strong> e, mais incrível ainda, a moto está com a relação de transmissão final original, não tem um pinguinho de óleo sujando o motor e ela parece novinha em folha. </p>

<p><span style="line-height: 1.6em;">Ele mesmo troca o óleo do motor a cada 2 000 km, e manutenções simples, como limpar filtro de ar, trocar vela de ignição e principalmente lavar, são com ele mesmo. Como ele põe o cavalete lateral para baixo? Fácil. Com a maior naturalidade do mundo, ele se inclina e desce o “pezinho” com a mão. Ele não precisa de ajuda pra nada. </span></p>

<p><span style="line-height: 1.6em;">Além de excelente motociclista, ele é uma daquelas pessoas cativantes, sempre sorrindo, bem-humorado e aceitando desafios. </span><span style="line-height: 1.6em;">Leitor de revistas especializadas de moto, ele está sempre ligado em técnicas de pilotagem e na evolução de pneus. Não perde uma corrida de MotoGP e já declarou que, quando precisarmos de um piloto para fazer testes, é só chamar! </span><strong style="line-height: 1.6em;">Sempre equipado e informado, ele vai longe. </strong></p>

<p><span style="line-height: 1.6em;">O que diz a legislação? <strong>Em sua carteira de habilitação tem um código representado pela letra S</strong>. Isso quer dizer que ele <strong>pode pilotar uma motocicleta com automação nas trocas de marcha.</strong> </span></p>

<p>No passado, quando tinha uma carteira que somente permitia a pilotagem de triciclos, um oficial de trânsito o deteu e só o liberou depois que outra pessoa levasse a moto embora, pois aquilo que ele estava pilotando (uma moto) não era um triciclo, segundo o oficial.</p>

<p><img alt="A facilidade com que Alexandre sobe, desce e conduz sua moto impressiona, e principalmente ensina sobre como querer é poder" height="467" src="http://carroonline.terra.com.br//motociclismoonline/staticcontent/images/uploads/motociclismo_alexandre_tenere_250_4_620x467.jpg" style="margin:0 auto; display:block;" width="620" /></p>

<p><span style="line-height: 1.6em;">Enfim, é mesmo difícil enquadrá-lo em alguma legislação exata para o seu caso específico, pois, ao vê-lo em pé, não dá para acreditar que ele possa pilotar uma moto. Mas testificamos, ele é mais do que capaz!</span></p>

<p>O desafiamos para um teste prático de pilotagem, daqueles bem difíceis, que requerem muito equilíbrio, e Alexandre Godoy não apenas passou tranquilo como deu uma verdadeira aula de pilotagem em muita gente. Há milhares de motociclistas por aí, com as duas pernas, que nem carteira de habilitação deveriam ter. </p>

<p>Nós da <a href="http://www.motorpress.com.br/moto"><span style="color:#FF0000;"><strong>MOTOCICLISMO</strong></span></a> tivemos um prazer especial em fazer esta matéria com o Alexandre.Verdadeiramente, uma lição de vida que vai (muito) além do motociclismo, mas que também mostrou, mais uma vez, como a motocicleta vai muito além de um meio de transporte. No caso de Alexandre, <strong>ela é seu transporte, ferramenta de trabalho, remédio e terapia</strong>.</p>

<p><strong>Obrigado, Alexandre. </strong></p>

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