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Crônica: A fina arte de desentortar bananas

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  • Publicado: 27/10/2015
  • Por: admin

<p>Quando eu era pequenininho, ficava olhando meu pai limpar, lavar, desmontar e remontar sua motocicleta. Ficava olhando, pensando em nada. Contemplando aquele arco-íris que saía do esguicho. Hoje pode parecer ecologicamente incorreto, mas jogávamos muita água para cima sem culpa. <span style="line-height: 1.6em;">Eu ficava lá, sentado na soleira da porta de casa, olhando a beleza do meu pai com chaves complexas </span><span style="line-height: 1.6em;">mexendo, desmontando e limpando sua moto. Depois ele me chamava e falava: “Carinha, vamos secar essa moto na rua”… E íamos! </span></p>

<p><img alt=" " height="467" src="http://carroonline.terra.com.br//motociclismoonline/staticcontent/images/uploads/motociclismo_pai_e_filho_2_620x467.jpg" style="margin:0 auto; display:block;" width="620" /></p>

<p>Sempre achei, e agora tenho certeza, que era um pretexto para passearmos. Na garupa eu gostava de ficar olhando, contemplando, sem pensar em nada muito mais difícil do que como é feito o cheiro do vento. Abraçava meu pai e com um ritual de confiança seguíamos pelas ruas, avenidas e estradas. Pois é, celebrávamos nossa amizade e união com um abraço de 30 minutos, uma hora. Ele na frente e eu na garupa, abraçados… Ele devia pensar em coisa nenhuma também e eu o acompanhava. Dois seres rasgando o asfalto unidos pelo corpo e pensando em vento. </p>

<p>Certa vez, na serra, indo para Caraguatatuba, litoral paulista, a bordo de sua Harley-Davidson de 1 200 cm³, raridade na época, eu quase dormi de tanto ficar contemplando tudo sem pensar em nada na calada da madrugada. Então meu pai resolveu me amarrar em seu corpo com uma “aranha”. E íamos lá: eu, meu pai unidos por um elástico em volta de nosso corpo. Cinto de segurança do passageiro (eu). Adorei a ideia! Quando amanheceu, eu estava com o corpo marcado por um elástico em minhas vértebras, colado no corpo dele.<span style="line-height: 1.6em;"> </span></p>

<p>Na minha opinião, essa é a coisa fina de pilotar motocicleta: falta de motivo. Olhar, contemplar, e olhar de novo coisas diferentes a cada segundo. Um galho no chão, um pássaro que passa, um cão de rua, um buraco. É graça, no sentido mais amplo da palavra. Somos agraciados pelo nada que ganha sentido. Pois é, às vezes me pego andando de moto olhando para o infinito, sem pensar em nada.</p>

<p>Pilotar às vezes é isso, algumas pessoas não entendem. Montar, ligar, acelerar e rodar, sem muito destino definido. Recentemente, passei alguns dias em uma cama de hospital me recuperando de um procedimento meio complexo e percebi que há diferenças no pensar em nada. Nada é tudo lá fora, rodando na estrada, e nada é nada entre quatro paredes. </p>

<p>Voltando aos meus passeios com meu pai, quando chegava em casa depois de um desses passeios “malucos”, que nunca eram anuciados, minha mãe não estava de muito bom humor, e meu pai simplemente falava: “Se tiver que explicar, você não iria entender”. Eu vinha atrás dele, ainda pensando em moto e vento. Pois é, enxugar gelo, limpar carvão, moer água, desentortar bananas, rodar, frear e acelerar… São coisas boas demais, não são? Agora, pare de ler esta coluna e vá rodar e pensar em vento! Keep riding! </p>

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